terça-feira, 17 de julho de 2018

Já vem ele dizendo que vai almoçar hoje de novo...

Argumentos batidos ainda andam

Algumas vezes na vida eu me deparei com um argumento falacioso usado por pessoas que conheço em certos assuntos sensíveis. Se trata do “eles sempre dizem que...” ou do “não me venha com essa de...”.

Esses argumentos são dados quando uma pessoa não aceita ser refutada por um argumento comum só pelo fato dele ser comum, independentemente do valor lógico do argumento.

Por exemplo particular é seguinte “achar que as mulheres devem ter direito superiores aos homens não é feminismo, é femismo, feminismo é a crença na igualdade de direitos pelos gêneros”. Muitas vezes falei isso, e hoje quando eu falo há quem diga “não me venha com essa história de femismo”. E já houve momentos em que eu perguntei “Por quê?” e a resposta foi “tá bom, você tá certo, pra acabar logo essa conversa”.

Tudo bem, talvez o termo correto ou usual seja misandria e eu não saiba muito sobre feminismo, mas a questão aqui não é essa. Não estou dizendo que o argumento acima é profundo, bem fundamentado ou está certo ou errado, mas o fato de eu dizer sempre a mesma coisa não quer dizer que o argumento está invalidado. É uma resposta a um comentário, e depois a recusa. Mas não é estranho o fato de quererem uma resposta diferente para o mesmo comentário? 

Como sabemos, para invalidar um argumento ou você explica porque ele falha, ou pelo menos o deixa na bolha do ceticismo, onde ele se torna duvidoso. Mas dizer que um argumento é ruim só porque ele é batido não faz sentido. É como se as verdades bem estabelecidas se tornassem irrelevantes.

Atribui-se a Goebbels, ministro da propaganda nazista, a frase “Uma mentira dita mil vezes se torna verdade”, mas as pessoas parecem ainda não levar em conta que Uma verdade dita mil vezes continua sendo verdade.

Sobre argumentos refutados

É claro que existe gente também que tenta de tudo para validar os argumentos sobre aquilo que deseja: astrologia, terra plana, teorias da conspiração, entre outras coisas. Mas espero que esteja claro, caro leitor, que o que estou chamando de argumentos batidos são apenas aqueles que foram muito repetidos e ainda não foram refutados e não aqueles que foram refutados. Vacina não causa autismo! A terra não é plana! E homeopatia... meus deuses... só polêmicas...

Tudo bem, eu sei que é da natureza humana ignorar aquilo que nega as próprias crenças e preconceitos e perceber e aceitar os argumentos que contribuem para fortalecer esses pontos de vista pré-estabelecidos; eu entendo que o  nosso cérebro é preguiçoso (Já leu "Rápido e Devagar: Duas maneiras de pensar"?). Não condeno o ser humano por isso. Provavelmente quem digitou isso não foi um javali, e quem está lendo não é um suricato, mas independente da nossa humanidade pode valer a pena pensar duas vezes na próxima vez antes de dizer "Já vem ele com essa história de novo".

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Pensamento lógico e Pensamento binário

Oi, eu sou de exatas. Mais ainda, eu sou matemático.

Matemáticos gostam de lógica, de simplificar e de resolver problemas difíceis, é prazeroso. Um problema é que o fato de gostarmos de um mundo lógico faz as pessoas acreditarem em alguns mitos.

Há quem diga que quem é de exatas enxerga tudo no preto ou no branco, ou é ou não é. De fato, ou é ou não é, mas isso não quer dizer que é tudo preto no branco. Quem não entende os pensamento matemáticos, e até muita gente que entende (falo de colegas brilhantes que tenho), questiona a lógica das coisas e o pensamento lógico; eles argumentam que o ser humano não é lógico. Eu discordo, e vou te explicar o porque.

A diferença entre o preto no branco e o é ou não é

Para um matemático/lógico ou uma coisa é, ou ela não é. Não faz sentido "ser, só que não". Ou uma coisa é preta ou não é. Ou uma coisa é branca ou não é. Mas a binariedade lógica não torna as coisas binárias. Dizer que uma coisa é ou é preta, ou não é, não é o mesmo que dizer que uma coisa é preta ou é branca. Existe todo um espectro de cinza, por exemplo. Se eu vejo uma tela  rosa, eu digo que ela não é preta, mas não é por isso que ela é branca. 

Em matemática não é "igual a A ou igual a B", é "igual a A ou diferente de A". Que acha que sempre tem que ser A ou B, acha errado (otá...).





Por que a Matemática não se dá bem com o senso comum

A diferença entre a discussão matemática e a discussão comum é que a matemática parte de conceitos e definições claros e sem ambiguidades, e é muito difícil deixar as coisas completamente claras. Quando matemáticos conversam entre si, mesmo sobre matemática, muitas vezes eles usam a linguagem difusa do senso comum e do dia-dia. 

Um exemplo de linguagem do senso comum é dizer que uma coisa é "grande". Grande não tem sentido por si só, precisa de um contexto. Um elefante é grande? Um planeta é grande? O que significa dizer que Mercúrio é pequeno e um elefante é grande, se Mercúrio é (provavelmente) maior do que qualquer elefante? 

O ser humano não precisa da lógica formal pra compreender o que outro ser humano está pensando quando ele fala sobre algo. Contexto e intuição constroem uma modelagem fiel do pensamento alheio.

Já a lógica é auto-consistente, sem paradoxos e sem necessidade de contexto. O preço que se paga pela certeza é o trabalho que dá deixar tudo auto-contido. Não dá pra responder logicamente se uma pessoa é adulta, sem uma definição clara do que é um adulto. E essa é uma limitação da lógica quando considerada uma ferramenta a serviço do ser humano.

Concluíndo

Como dizem alguns: Tá bom pra acabar logo.

Quanto mais eu escrevo, mais vejo que tem coisas pra serem discutidas nesse contexto. Deixarei certos pontos para discussões futuras.

Em caso de dúvida, sugestão ou xingamento, comente aí. Que a força esteja com você.

Obrigado por ter lido e por ser lindo!

Obrigado Guilherme, pelas sugestões! S2

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Anatomia da Escrita (post 1)

Olá senhoras e senhores, hoje recomecei a ler o livro The Anatomy of Story de John Truby. É um livro muito interessante sobre escrita que vi no canal Just Write. Eu já comecei a ler o livro duas vezes, mas acabei parando a leitura no meio por não estar escrevendo, por não estar aplicando as ideias. Então com o velho espírito acadêmico decidi fazer o exercício de divulgar pequenas ideias, como fazem os canais de vídeo-ensaio que tanto gosto. 



Dito "içus", vamos falar das primeiras páginas do livro e fazer uma micro-análise de um documentário que assisti hoje: O processo.

O livro começa com uma definição indireta de o que é uma história:

Um narrador conta para um ouvinte o que alguém fez para conseguir o que queria e o porquê.

A definição é bem simples, mas é bastante iluminadora. Pra quem gosta de escrever histórias, isso é uma compilação interessante. Isso pode ser inclusive uma técnica de conversação, ou uma técnica de auto-terapia, para aqueles que gostam de conversar consigo mesmo.

O livro segue, e nas páginas que vêm ele a nos explica que uma história é essencialmente a mudança de um personagem e aí nos diz em que se sustenta uma mudança:

 Mudança é abastecida por desejo. O "mundo da história" não ferve com "E acho, portanto eu sou" e sim com "Eu quero, portanto eu sou". [...] Uma história segue o que uma pessoa quer, o que essa pessoa fará pra conseguir isso, e o que custará, o que ela terá de pagar no caminho.


Hoje assisti ao documentário "O Processo" e a leitura do livro agora me inspirou a observar o documentário com esses novos olhos. O documentário conta uma perspectiva do que ocorreu no processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef, podemos dizer que existem dois personagens globais: a Aliança (da presidenta) e a Oposição. O que os personagens querem é óbvio, a Aliança deseja que o processo seja cancelado e a Oposição deseja que a presidenta seja retirada do cargo. Assim, o que o documentário narra, é justamente o esforço de cada parte em conseguir o que desejam. 

Agora um exercício intelectual para vocês: O que cada parte paga para conseguir o que quer?

E você? Qual é o desejo do seu personagem favorito? Por quê? O que ele paga?
Comente aí!